De novo?

Vivian teve dificuldade para equilibrar os muitos livros da faculdade e as sacolas das compras em uma mão só, mas finalmente conseguiu destrancar a porta do apartamento, que abriu com um pontapé.

– Não, Lily, espera um pouco! – disse a universitária quando sua gata entrelaçou-se entre suas pernas cumprimentado-a – Humpf… Eu tenho que guardar isso antes… Lily!

Um miado queixoso e o som doce de um guizo avisaram que Vivian pisara no rabo de Lily. De novo.

– Droga! – exclamou contrariada a ruiva.

Largou as compras no chão da cozinha e os livros no balcão, jogou os tênis em um canto e subiu na pia para alcançar o armário de cima. Procurando um agrado para a gata, Vivian lembrou que os enlatados acabaram na semana passada quando acidentalmente pisara no rabo de Lily dançando Spice Girls. E no mercado, se esquecera de comprar mais. De novo.

– Droga! – exclamou a garota ainda mais contrariada, batendo com o pé na pia.

Mas quando pulou para o chão, caiu de mau jeito, e acabou machucando o tornozelo. Foi de gatinhas até o quarto, xingando baixinho, e deu de cara com Lily – ela sempre se escondia em baixo da cama nessas ocasiões – que empinou o nariz e saiu andando indiferente, com seu guizo titilando na coleira. Vivian mordeu o lábio inferior para reprimir outro palavrão. Franziu o nariz quando passou gelol no tornozelo machucado e aproveitou para trocar de roupa: camisetão do bocão, samba canção de joaninha e suas pantufas fofas de coelho – Lily adorava aquelas pantufas.

Foi até a gata e balançou os pés, como um pedido de desculpas. Mas ela simplesmente virou a cara. Vivian bufou e voltou à cozinha pisando duro, apertando com raiva o botão da secretária eletrônica. Mas teve que apertar mais três ou quatro vezes, porque o botão estava com defeito. De novo.

“Você tem… duas… novas mensagens” anunciou a voz mecânica meio falha. “Alô, querida? Você está aí? Bom, acho que não. Estou ligando para avisar que eu e seu pai vamos passar o fim de semana na casa de sua vó. Parece que a gastrite dela piorou desde a semana passada. Bom, acho que é isso. Beijo, tchau”.

A avó de Vivian tinha gastrite desde que ela podia se lembrar. Talvez fosse por causa daquela macarronada esquisita que a senhora servia toda vez que a menina visitava a vó quando era pequena. Ela tinha aquela receita em algum lugar. “VIVIAN! Eu sei que está aí, não adianta fingir! Vivian, é melhor atender esse telefone agora mesmo!” A garota não conseguia entender por que ele insistia em gritar tanto. Até parece que ela atenderia ao telefone mesmo que estivesse em casa. “Não está em casa, hãn? Pois então muito bem. O ALUGUEL ESTÁ ATRASADO. Você tem duas semanas, ou eu juro que desta vez te ponho daqui pra fora. Esta entendendo bem? DUAS SEMANAS!”.

Droga. Esquecera de pagar ao senhor Hockins. De novo.

Tentando não se esquecer de pregar um lembrete na geladeira sobre isso mais tarde, Vivian foi procurar o velho livro de receitas da avó. Não achou. Decidiu fazer uma omelete. O sal tinha acabado. Achou melhor guardar as compras antes de começar a fazer o almoço. Esqueceu de comprar o óleo. De novo. Fez um macarrão instantâneo com ovos e deu um pouco para a gata. Lembrou que o livro de receitas ficava no armário da sala.

Já estava comendo seu sorvete de sobremesa – esse ela não tinha esquecido de comprar dessa vez – quando o telefone tocou. Esperou cair na secretária para ter certeza que não era o senhor Hockins cobrando o aluguel.

– Atende Ví, não é o senhor Hockins. – disse uma voz conhecida do outro lado da linha.

– Duda?

– Não Vivian, é sua vó. Claro que sou eu.

– Esqueci que só você me liga na hora da sobremesa.

– Você tem a mania de esquecer muitas coisas. Minha mãe diz que caqui é bom pra memória.

– Odeio caqui.

– Eu também. Mas, no seu caso, acho que vale a pena tentar.

– Ah, Duda, nem sou tão esquecida assim, tá?

– Já trocou o cano da pia?

– Que cano?

– Viu, aí está.

– Sério, que cano?

– O do tanque, Ví. Está furado a dois meses.

– Ah, esse cano.

– E a Lily, como está?

A ruiva se apoiou no braço do sofá pra ver o corredor. A gata continuava do lado da sua tigela com cara de impaciente. O macarrão com ovo também continuava do mesmo jeito.

– Hãn… Provavelmente com fome.

Duda suspirou do outro lado da linha:

– Andou ouvindo Spice Girls de novo, não foi?

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