Uma partida de deuses

Tinha mais gente ali do que ele já tinha visto em todos os seus sete anos de vida. Dezenas de milhares de pessoas gritavam e urravam e batiam palmas ao seu redor, num estádio que parecia pequeno demais para tanta algazarra – mesmo sendo o maior do Brasil. Mas o mais assombroso de tudo é que, do seu ponto de observação sobre os ombros do pai, Duda não via uma multidão. Ele via uma massa única, pulsando e se agitando de acordo com algum ritmo inconstante e contagioso. Na verdade, eram duas massas distintas: uma era vermelha e de uma inquietação violenta, enquanto a segunda era azul e absurdamente organizada, sem ser menos intimidadora.

Claro, havia alguns torcedores penetras também. Pontinhos multicoloridos na arquibancada, gritando pela preservação da Amazônia, pela valorização da música, pelo fim da educação formal ou por qualquer outra causa que ninguém parecia estar disposto a dar ouvidos àquela noite.

Até porque, era impossível ouvir qualquer coisa além da gritaria da turba.

Mas por mais que o espetáculo fosse impressionante, não eram os braços que batiam palmas sincronizadas ou as ondas humanas que faziam o coraçãozinha de Duda disparar. Eram os dois times que entravam em campo naquele momento, como exércitos se posicionando para a batalha. Na cabeça do guri, eles até estavam equipados com elmos e armaduras. Porque aqueles ali não eram só bons jogadores. Não eram simplesmente os melhores. Eles eram a elite do futebol. A nata. Verdadeiros heróis dos tempos modernos. Verdadeiros semideuses.

Eles eram a Copa do Mundo.

Duda nunca entendeu direito a influência dos Jogos na conduta da humanidade. Ou será que era a conduta da humanidade que influenciava os Jogos? Bom, era algo realmente complicado para um menino de sete anos (e para a maioria dos adultos também, mas eles jamais admitiriam o fato). Tudo que Duda sabia era que quando o Vinho Novo começava um campeonato invicto, de repente todo mundo ficava mais dado à festas. Dionísio, aliás, tinha ficado muito popular no Brasil, depois que se tornou patrono da cerveja.

Quando adotou o carnaval então, nem se fala.

Por outro lado, dois meses atrás a enorme comoção do fã clube de Apolo no twitter acabou levando à Lira de Ouro para as semifinais na Liga de Vôlei.

Mas mais importante que isso, Duda sabia que se a Lança Ariana ganhasse aquela partida, Gumão, o valentão da escola (que não por acaso se dizia neto do Senhor da Guerra) de repente ficaria mais forte. E, de repente, ficaria mais difícil não reagir quando ele aprontasse alguma das suas. E então, de repente, Duda ganharia uma suspensão por brigar no colégio – e um belo castigo quando chegasse em casa. Logo, era bom que todas as peladas que ele tinha dedicado em honra ao Corujão valessem à pena. Porque aquele não era só mais um jogo da Copa, era a final. Entre Ares e Atena.

A partida ia começar.

Hermes, como de costume, surgiu planando do nada com seu Nike alado e pousou no meio do campo, em um tipo de engenhoca entre os dois times enfileirados. Imediatamente, uma luz o iluminou de baixo para cima, projetando uma imagem de aproximadamente quinze metros da divindade protetora dos ginásios e estádios. Ninguém precisava de telões quando Hefesto decidia se exibir um pouco. Seus seguidores defendiam que o próximo presente dele para a humanidade desencadearia a Quarta Revolução Industrial.

– Sabem – o deus coçou suas costas com o caduceu, visivelmente bem humorado, e o gigante luminoso o imitou – Não posso dizer que estou exatamente satisfeito por meu time não estar disputando as finais hoje. Mas acho que assim foi melhor. Pelo menos, ninguém pode me acusar de roubo dessa vez.

Hermes piscou de um jeito maroto, arrancando risadas da arquibancada. Por mais que fosse o patrono dos atletas, seu time raramente ocupava o pódio em qualquer um dos Grandes Jogos, e mesmo assim ele continuava absurdamente popular entre os mortais. Duda achava que era porque, de uma forma ou de outra, qualquer esporte era uma homenagem indireta a Hermes. Ele abriu aquele seu sorriso capaz de tornar qualquer atmosfera mais descontraída e cruzou os braços sobre o peito, encarando a sua platéia.

– Seja como for, aqui estamos. Eu supostamente deveria fazer um discurso dando parabéns aos times que se mostraram dignos de estar aqui, falar de como eles honram seus deuses, seus torcedores e os ideais que representam hoje neste campo e etc. Mas sejamos francos: por mais que minha voz seja adorável, vocês não pagaram seu suado dinheirinho para me ouvir falar. Então façam barulho, porque esse jogo começa AGORA!

A versão gigante de Hermes apontou o caduceu para o alto, que disparou fogos de artifício sob os aplausos ensandecidos da arquibancada. Duda teve que se segurar com força na cabeça do pai, que de repente parecia ter esquecido do filho sobre seus ombros e pulava como uma criança. Mas ele próprio também gritava e assobiava com os demais, sentindo a expectativa crescer dentro dele como aquelas luzes se expandiam no céu. A maior delas foi mais alto, mas não se partiu ou foi perdendo força como as demais. Ela subiu até se confundir com as estrelas, e depois começou a cair com o dobro da velocidade. Quando atingiu o chão – curiosamente, bem onde Hermes estava um segundo atrás e sem causar nenhum estrago – não era mais uma simples bola luminosa.

Era uma bola luminosa de futebol, abençoada pelos deuses.

Alguém assoprou um apito em algum lugar, e se aquilo era possível, a multidão gritou com mais força.

Notas: esse texto foi escrito entre dia 16 e 17 de abril do ano passado para a antologia Deuses da Editora Infinitum. Não cheguei a participar – e nem a ler a antologia que já foi publicada, devo acrescentar – mas se tornou um dos meus textos preferidos. Principalmente por eu enquadrá-lo como uma crônica, que é uma das modalidades que mais gosto e mais tenho dificuldade em escrever. A imagem do post foi pega no DeviantArt do Sketcher 2007.

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