Próxima parada

Tenho saudades daquelas horas gastas, horas perdidas sem culpa. Tenho saudades de não ter (ou não precisar de) um plano a ser seguido, porque o acaso sempre trazia o melhor. Ah, como era bom divagar daquele jeito, rir sem motivo, conversar interminavelmente sobre assunto nenhum pelo simples prazer te trocar ideias. Ideias assim como as nossas, sem muito sentido ou razão de ser. E como eram bonitas, eu vejo agora, as nossas ideias.

Sinto falta desse tempo perdido, porque chegou o tempo que não há mais tempo a perder. Mas se eu o tivesse – e digo esse tempo, e não mais tempo – eu o perderia de novo com todo o prazer naquelas coisas meio inúteis que faziam, e ainda fazem, toda diferença e todo o bem. Aquele tempo não volta. Ainda que existisse uma fórmula mágica, palavras estranhas, um estalar de dedos e woop-woorp!, houvesse mais tempo para mim e para vocês, não seria mais a mesma coisa. Não seria mais o mesmo tempo.

Porque o tempo, aquele ditadorzinho impaciente, passa e a gente vai passando junto, quase sem perceber. Eu fui passando. Fomos passando, se vocês me permitem dizer. Não voltamos. Isso nos torna ainda mais bonitos, acho (porque lindos nós sempre fomos, que me desculpe quem discordar). Dói isso, mas é uma dor boa. Porque significa que nada (ou quase nada. Depende se estamos considerando fórmulas mágicas agora) pode mudar o que passou. Nada muda o que nós fomos. Mas nós mudamos, enfim, sobretudo mudando uns aos outros.

Desculpe por soar assim tão melancólica. Culpa da Dona Saudade, e essa nem preciso lhes apresentar. Uma visita insistente, ela, mas no fundo a gente se afeiçoa. Não me levem a mal, não fiquem tristes se eu não voltar. Não fiquem tristes, vocês que me deram tanta alegria. Ri tanto com vocês que já me acharam maluca – e se eu sou (esse “se” é força de expressão, sabemos que somos todos) a culpa é de vocês. Mesmo as lágrimas, a maioria só vieram porque gargalhar não bastava. E as outras… Dessas outras, tão poucas, tão raras, talvez eu goste ainda mais.

Olhem só, de novo melancólica. Que idade tenho eu para ser melancólica? Para chorar e saudar e lamentar o tempo que passou? Não, lamentar não. Foi um tempo muito bem perdido, daquele que não se acha igual, obrigada – e aqui eu digo, obrigada mesmo. O tempo passou e continua passando sem que se possa fazer nada. Ele me trouxe vocês e agora vai levando embora. Como um trem, que aparece ao longe, devagarzinho, chega de repente e passa num instante. Você nem viu e ele já foi. Peguei esse trem, viajei muito e saltei. Ou melhor, fui puxada para fora. Mas muitas coisas ficaram na bagagem, e a melhor delas foram vocês.

Que venha outro trem agora, outras viagens. Vamos conhecer o mundo e os mundos em cada pessoa de cada tempo. Vem, tempo, passar outra vez e deixar outras saudades. Você que foge, que me escapa, voe longe e voe rápido, durante o tempo que for preciso para me levar a outros tempos. Se serão bons, se serão difíceis… A verdade é que será as duas coisas. Para vocês, amigos, desejo apenas isso: tempo.

Tempo para fazer o que quiserem, e o que precisarem fazer. Tempo para parar um pouco e olhar para o céu. Tempo para divagar também, porque somos (graças a Deus) do tipo de pessoa que precisa imaginar um pouco muito para viver. Tempo até para dar um pouco de atenção à Dona Saudade, que está sempre pelos cantos procurando um ouvido amigo.

Meu tempo, perdoem-me, não posso dar. Esse vai lá longe, e já é tempo de correr atrás dele.

Clique aqui para ver o crédito da imagem usada no post. Esse texto eu dedico a muitas pessoas, em especial, a muitas que nem chegarão a lê-lo. Mas de forma ainda mais especial, queria dedicá-lo a um pessoal incrível, que foram grandes companions para mim de 2009 ao começo desse ano. Graças a vocês eu conheci muitas coisas novas e aprendi tantas outras; sem falar do quanto cresci ao lado de pessoas tão maravilhosas. Mas vou parando por aqui, ou isso vai virar outro texto. Só queria frisar o quanto amo vocês e lhes desejo todo o sucesso do mundo. Obrigada, povão ♥

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Um comentário sobre “Próxima parada

  1. Eu conheço bem o tempo perdido, e acho que você se confundiu, porque não se guarda memórias de tempos perdidos, não mesmo. O tempo perdido passou pelos meus dedos quando eu o encontrei, e passei anos até decidir que era tempo perdido.

    Tempo perdido foi eu me segurar antes de uma piada arriscada, foi não ter abraçado mais uma pessoa amada. Tempo perdido é não chorar em cima de um livro e de uma palavra bonita. Eu perdi tanto tempo contigo… às vezes eu queria ter gastado melhor, ter falado mais, mas eu não sou um homem de arrependimentos (embora os esteja colocando em palavras) e não sou um homem de lágrimas (embora tenha elas carregando meus olhos). Acho que, às vezes, eu tenho é por demasia uma alma de poeta [risos], e por isso algumas coisas, algumas pessoas, me atingem como nunca, e eu jamais poderia pensar nelas como tempo perdido.

    Mesmo elas indo embora.

    Sabe de uma coisa? Eu comecei isso aqui com raiva, depois começar a chorar e agora eu tô rindo, porque, como você disse, somos todos malucos, completamente doidos. Eu gosto dessa loucura, eu gosto porque ela me muda, e por isso, no fim, eu não vou me despedir de ti com lágrima nenhuma, eu vou me despedir com o corriso de quem acabou de contar uma piada esperta. Eu vou deixar você ir embora pra seguir seus sonhos, aquele que eu sei que você tem, e não posso pedir algo de constante na minha vida se quero viver essas emoções e sei que você também quer viver muitas outras.

    Quero que você seja feliz, não importa quando, não importa onde, não importa se você estiver velhinha e caduca cuspindo sua dentadura no bolo de aniversário de cento e vinte e oito anos, não importa se você estiver muito longe, com gente especial diferente da que você conheceu antes.

    E aqui eu comecei a chorar de novo, e chorar e rir, como uma verdadeira chuva num céu ensolarado.

    Mas saiba que eu continuo, meio perdido, claro, porque isso parece que é meu. E não posso, e eu não quero sentir raiva de quem tem pra onde ir. Ou talvez eu só ame muito, e não consiga deixar de sentir alegria quando alguém especial consegue traçar seus planos para aquilo que quer.

    Sò me prometa que nunca vá dizer que foi tempo perdido. Não se tem saudade de tempo perdido. Não se aprende com tempo perdido. Você não deixa marcas nos outros com tempo perdido – apenas marcas em si, não cicatrizes, mas rugas.

    Então vai lá, e que o LIttle Cap ilumine seus dias escuros.

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