Viagem sem volta

a viagem sem volta

O ruído contínuo do trem passando sobre os trilhos era como uma canção de ninar. As pálpebras, pesadas, tentavam manter-se abertas a todo custo. Seu esforço fora em vão. Em poucos minutos, dormia. Acordou horas depois, sobressaltado, com um solavanco violento do vagão. Olhou pela janela – a lua resplandecente no alto do céu estrelado dizia que a meia-noite não tardaria a chegar.

  • Diabos… – resmungou, abrindo a porta com um estrondo.

Caminhou pelo corredor deserto e silencioso como a noite que se estendia lá fora até o vagão-restaurante, igualmente vazio. Sentou-se em uma mesa de canto, como de costume, e pediu ao garçom de prontidão uma xícara de café bem forte. Tirou a cigarreira do bolso e tateou o casaco em busca do isqueiro. Não o encontrou.

  • Senhor? – chamou o garçom com voz baixa – Aqui está seu café, bem forte como foi pedido. E um dos passageiros lhe enviou isso – ele acrescentou quase num sussurro, colocando ao lado da xícara um pequeno isqueiro prateado, juntamente como um bilhete.

O rapaz ia se retirar quando uma mão agarrou fortemente seu pulso, e a bandeja que carregava caiu com um baque surdo. O homem agora o encarava intensamente, as unhas sujas, casaco surrado, barba mal-feita e um par de olhos verdes, estranhamente opacos, ainda assim com uma perspicácia assustadoramente incomum.

  • Você não roubou isso, roubou? – sua voz rouca soou ameaçadora no silêncio da noite.

  • N-não, senhor. Apenas fiz o que me mandaram fazer, senhor.

Ele continuou segurando o pulso do garçom, analisando-o com os olhos bem treinados de um jogador experiente. Não mentia, concluiu. Soltou a vítima que saiu assustada. Os olhos agora voltaram-se para o bilhete. “Parece que deixou seu isqueiro cair no corredor. Se por ventura quiser me agradecer, estarei esperando no compartimento 113”, era o que dizia.

Fitou o pedaço de papel com interesse. A caligrafia fina e arrendondada indicava uma autoria feminina. Não demorou muito para levantar-se e seguir para o local indicado, a passos largos e rápidos – de repente, não sentia tanto sono. Mas, ao chegar na porta do compartimento, hesitou. E se fosse uma armadilha?

Que seja, então”, pensou ele. “Antes ser capturado que ficar nessa vida. Não tenho mais idade para essas coisas”. Hesitou ainda um pouco mais e, em seguida, entrou sem bater. Sentou-se numa cadeira que um dedo comprido e pálido lhe indicou, e na penumbra do ambiente, só conseguiu enxergar um par de olhos cinzentos e gélidos.

Os olhos se olharam, estudando um ao outro. Travaram um embate silencioso para chegar ao fundo de suas intenções, penetrar nos pensamentos do outro – ambos permaneceram impassíveis. Cansado de jogos, ele perguntou para a escuridão:

  • O que você quer?

A figura inclinou-se para perto dele, estendendo a chama de um isqueiro prateado para o cigarro que estava pendurado na sua boca desde que sentara-se no vagão-restaurante. A chama trêmula iluminou um rosto jovem – demasiadamente jovem – e esguio, emoldurado por ondas castanhas e adornado por um par de lábios fartos e vermelhos. Os lábios se entreabriram num sussurro desgostoso.

  • A pergunta certa seria: o que você quer, Richard?

 

Escrito em 29 de maio de 2009 para uma redação do colégio. Tentei editar o mínimo possível que meu senso crítico me permitiu para manter a essência do texto, mas sinto uma falta de coesão e alguns pontos meio exagerados. O nome que eu dei para o cara é de doer, mas paciência. Enfim, essa seria a terceira e última parte escrita da “Ordem do Isqueiro Prateado”, o texto que eu me referi no último post e que está perdido </3. A segunda parte contava a história dessa moça, creio que o nome dela era Susana; e a primeira parte, a história do homem que a aliciou. Não tenho muito além disso, na verdade. Imagem original tirada daqui.

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