A canção das três torres

ec1ee29dc09a3f299b7468e002ac78efBahadur levou a trompa até os lábios secos e soprou. O ar a sua volta tremeu como se dez mil guerreiros prestassem continência ao mesmo tempo ao ouvir a canção da trompa – uma nota profunda, grave e contínua, que evocava a longa história dos seus ancestrais, ressoando em todo vale até atingir os fundamentos das três torres que eles erigiram nos primeiros dias. O timbre forte e imperioso da trompa atravessou os salões vazios, adentrou as salas trancadas e preencheu os corredores desertos até o recanto mais oculto. Bahadur inspirou. Ele podia sentir aquela presença, tão avessa à desolação de instantes antes. O palácio do seu povo estava repleto mais uma vez, mas ele não saberia dizer de quê. E com aquele ar inquieto e pesado circulando dentro do peito, soprou mais uma vez e mais demoradamente.

A canção de uma nota só pareceu se avolumar enquanto Bahadur a sustentava com seu fôlego, procurando avidamente por mais espaço. As colunas dos portais estalaram e o batente de algumas janelas se partiram à medida que o som tentava penetrar nas torres, numa inquietação e urgência crescentes. O zunido ricocheteou entre os troncos maciços das três torres e se dividiu. Bahadur não podia ver, mas podia ouvir a canção galgando a copa das torres e ao mesmo tempo descendo pelos veios nos caules até atingir o chão, rasgando-o e desenhando largas fendas no solo.

O ar agora positivamente tremia ao ponto de desestabilizar sua visão e derrubar centenas das folhas verdes e douradas que levariam anos para concluir sua queda. Bahadur sabia não apenas o que estava ali, mas o que estava vindo – o que ele estava invocando – e aquele o pensamento o abalou mais que o som da trompa, matando seu fôlego. O último cavaleiro abaixou seu instrumento, ofegante, e grossas lágrimas desceram pelo seu rosto. Mesmo com a visão turva e embaçada, mesmo em ruínas, as três torres eram a visão mais linda que já tivera e jamais teria.

Colossais e imponentes, robustas e elegantes, firmes e delicadas – eram o retrato do seu povo e eram seu povo em si mesmo. A conjunção perfeita de madeira, pedra e vidro. Estava tudo ali.Toda a história e toda cultura impressa nos padrões intricados delicadamente talhados nas paredes. Linhas finas e curvas que, mesmo entre as lágrimas e a uma distância maior que meramente o espaço físico, ele podia identificar, ler e amar. O tripé da sua raça, as três colunas que ele sentia sustentar seu próprio corpo – condenadas.

Por ele.

Os dedos de Bahadur apertaram a trompa até sentir o osso da base rachar, e sem se permitir um último pensamento, ele inspirou fundo e soprou uma última vez. Mas não foi só a música que saiu dos lábios da trompa. Foi um grito terrível de raiva, dor e tristeza que abalou o vale e penetrou nas fendas no solo, atingindo profundamente as raízes das três torres e fazendo despertar uma força tremenda. Imediatamente o chão ao redor delas cedeu e se desfez à medida que raízes grossas como mil árvores se rebelaram e vieram à tona, contorcendo-se e se esticando enquanto se enrolavam lentamente ao redor dos três troncos, esmagando as paredes tão delicadamente esculpidas.

As raízes estreitaram seu aperto enquanto a canção se elevava a um pranto – madeira, pedra e vidro. Tudo rachou, despedaçou-se e cedeu. O ruído do lenho rangendo e explodindo só não era mais alto que o choro da trompa, que permanecia embalando a desventura e rasgando o que encontrava pelo caminho. A primeira e mais sólida das três torres foi a primeira a tombar, revelando a base até então enterrada por quilômetros e fazendo a terra tremer com tal força que todos no continente puderam sentir o chão se abalar sob seus pés. O peso da torre morta procurou em vão apoio na segunda torre, empurrando também ela para o fim; e esta, a terceira.

Não mais que alguns minutos, e o legado de um povo jazia inerte no chão do vale. Um lastro de destruição e perda feriu a terra sem esperança de que se cicatrizasse um dia. Estava feito. As três torres desmoronaram. Madeira, pedra e vidro se assentaram mais uma vez, e não se ouviu mais o murmurinho do rio na sua base, ou o vento acariciando suas folhas e nem os pássaros procurando abrigo nos seus troncos. Em verdade, o vale inteiro se calou em luto. Não se ouvia o respirar de nenhuma criatura.

Nem mesmo de Bahadur, que como seu povo e suas torres, estava prostrado por terra. A trompa repousava ao seu lado, rachada da base à ponta, e jamais poderia cantar novamente. Com seu último fôlego, Bahadur silenciou a história da sua raça. A canção das três torres, por fim, terminara.

 

Eu mantenho um painel no Pinterest com imagens para me inspirar e escrever textos. Esse é o primeiro que realmente sai. Não está exatamente fiel à imagem, que seria uma mistura do momento que Badahur (nome que significa guerreiro em turco segundo o Behind the Name) sopra a trompa na primeira e na terceira vez. Não tenho o link original da imagem, mas parece que ela foi feita por um artista chamado Goran Josic. Ouvi um pedaço da ost de Halo para me inspirar (:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s