Um café meio-amargo

Ela girava o pulso sem parar, apenas em parte consciente do movimento enquanto pequenas ondulações surgiam e desapareciam na superfície do capuccino a sua frente. Dani nunca deu muita bola para elas. Gostava era de observar o pequeno redemoinho de vapor que se levantava acima da xícara, e como o mundo parecia mais caloroso e interessante através dele. Dentro da cafeteria, na verdade, o mundo parecia melhor e mais simples. Adorava aquele lugar. Adorava o cheiro de grão tostado, canela e chantilly, com uma pitadinha de chocolate. E mesmo sentada na sua mesa favorita, no clima mais aprazível possível, naquela tarde os olhos castanhos de Dani estavam vidrados na janela, atentos ao mundo do lado de fora.

Chovia aquela chuva preguiçosa, de dar vontade de não tirar o pijama, mas não o suficiente para embotar o dourado do sol que ia encerrando o dia. Passavam mais carros que pessoas, e as poças de água barrenta pareciam um reflexo ampliado e mais frenético da superfície do seu capuccino, com todas aquelas ondas indo e vindo sem parar. Dani tamborilou os dedos da outra mão no tampo da sua mesa favorita, emendou duas batidinhas decididas e se levantou de repente, com a xícara na mão. Deu quatro goles longos de olhos fechados, virando o capuccino como uma universitária viraria uma dose dupla de vodka naquelas festas loucas que ela nunca ia. O calor e a coragem que vieram devem ter sido de alguma maneira parecidos com o que a vodka fazia, porque no instante seguinte ela estava sentada num dos bancos altos, de braços cruzados no balcão.

De frente para Bernardo.

Oi“.

Bernardo desgrudou os olhos da dúzia de xícaras que estava enxugando e virou a cabeça para encarar a garota. Sorriu. Capuccino com canela e chocolate meio-amargo, “se tiver como“. Adorava como ela própria parecia um cappucino – a cor da pele, o cabelo meio chocolate e meio canela, e um gorro branco por cima que lembrava chantilly. Até o grande casaco marrom, onde ela sempre escondia as mãos quando estava perto do balcão. Devia ser a primeira vez que via as mãos dela de perto, sem uma xícara entre elas. Tinha um anel de coco no indicador. Aumentou o sorriso e voltou a secar a louça.

Outro cappucino?

Não, valeu“, murmurou ela, olhando para baixo – o que Bernardo, claro, não percebeu. Mas pela negativa e pelo tom de voz, Bernardo teve a impressão que ela estava sem graça. Já ele, estava estava confuso. Deixou o pano de lado e se virou para ela. Nunca na vida tinha ouvido aquela garota negar um capuccino.

Hm, quer alguma outra coisa?“, perguntou ele meio hesitante, como quem perguntava se estava tudo bem. “Um expresso?“, arriscou. Dani riu e apoiou o queixo em uma das mãos, olhando para Bernardo por meio segundo antes de voltar a encarar o balcão. Dava para ver os veios da madeira. “Todo mundo quer alguma coisa, né?“, respondeu ela, seguindo uma das marcas com o dedo. Aquele com o anel. “Bom, é uma cafeteria. As pessoas geralmente vem aqui por que querem café“. A resposta saiu bem humorada e seguida de uma risada, mas o jeito como ela simplesmente não reagiu o fez pensar se tinha falado alguma besteira.

Bernardo suspirou e espalmou as duas mãos no balcão, inclinando-se um pouco para frente. Já trabalhava ali há quase um ano e sabia que a clientela se dividia entre pessoas normais que pediam um café para viagem e entre pessoas excêntricas que… bom, que tinham algum lance com café – com quem ele não falava além do necessário. A menina do cappucino parecia ser do segundo tipo, mas numa versão menos assustadora. Pigarreou.

Você, por exemplo, geralmente vai de cappucino ou mocha. E, ok, acompanhado de longas horas sentada naquela mesa ali“, acrescentou ele, indicando local com a cabeça. Ela riu quase de forma quase imperceptível. “O que houve?“. Dani ergueu os olhos castanhos para Bernardo. Ela gostava do cabelo dele, grudado na cabeça e todo encaracolado, a barba mal-feita no queixo magro, as mãos grandes demais para caber nas xícaras. Umedeceu os lábios. Bernardo parecia… simples. E um pouco desconfortável por ser encarado tão diretamente. Sorriu de canto. “Nada. Acho que vou querer aquele cappucino agora“.

Definitivamente alguém do segundo tipo, conclui Bernardo, nos poucos segundos que sustentou o olhar dela antes de começar a preparar o pedido. Riu consigo mesmo enquanto a máquina cuspia o leite vaporizado. Em parte, era por conta de pessoas como a garota do cappucino que ele mantinha aquele emprego. Era um certo fascínio misturado com aversão, e um lembrete saudável para se manter no mundo ordinário.

Sabe, uma boa forma de continuar esse seu diálogo profundo seria perguntar o que eu quero“, provocou ele, empurrando a xícara pelo balcão. O céu antes dourado agora estava entre laranja e rosa, deixando a cor da pele dele um pouco mais fria. Dani sentiu que ele parecia meio impaciente com alguma coisa. Balançou a cabeça, pegando a xícara com as duas mãos. “Bom, eu não queria continuar meu diálogo profundo, então acho que não vai acontecer“, murmurou, antes de dar o primeiro gole. “Isso é muito egoísmo da sua parte“, retrucou ele, voltando a secar a louça.

Dani deu mais quatro goles curtos antes dele falar outra vez.

Você deve se achar superior“.

Não era exatamente uma acusação, era mais um desabafo. O tom dele foi tão tranquilo e tão baixo que ela duvidou por um instante que era com ela. Largou a xícara sobre o pires e apoiou o rosto nas mãos entrelaçadas. “Por que você está falando comigo?“. Bernardo se virou imediatamente para ela, com uma sobrancelha erguida. “Nossa. Não sei, talvez porque eu queira, quem sabe?“. O tom era de deboche. Era cada uma. Dani riu e cruzou os braços sobre o balcão. “Porque você quer? Sério?“.

Bernardo riu também.

Sério“.

Ok. Então deixa eu ver se eu entendi“, começou Dani, voltando a se apoiar no balcão. “Eu frequento essa cafeteria há dois anos, pelo menos três vezes por semana, sento sempre no mesmo lugar, peço sempre a mesma coisa, sou sempre servida por você e justo hoje, porque eu me atrevo a sentar nesse bendito balcão e fazer alguma coisa que aparentemente ofende seu orgulho, por algum juízo precipitado que você fez de mim após longas horas me observando fazendo nada que te interesse… Aí você quer falar comigo“, enunciou ela calmamente. Puxou a xícara para si. “Aham, ok. Você nem sabe meu nome, Bernardo“.

O rapaz segurou o pulso dela antes que Dani pudesse tocar o líquido com seus lábios, aproximando seu rosto do dela. “A única razão para isso é que eu uso um crachá, e você não“. O ar dele era de um triunfo modesto. Ela se aproximou mais dois centímetros. “Não. Eu perguntei seu nome no dia que você começou a trabalhar aqui. E mesmo tendo escrito meu um milhão de vezes nos meus pedidos pra viagem, você não lembra. Bernardo“.

Ele abriu a boca para responder, mas não encontrou nada para falar. Foi atingido pela consciência súbita de que o hálito dela cheirava a café. Ele sentia aquele cheiro todos os dias, e se um dia gostou, com o tempo deixou perdeu o gosto. Mas vindo da boca dela, era diferente. E assim se deu conta que estava encarando a boca da garota do cappucino. Que ficou irritada, ou abalada, ou as duas coisas. Puxou tão bruscamente o braço quanto era possível sem derramar o seu café, apenas para pousar a xícara violentamente sobre o balcão. Expirou como uma chaleira apitando e estava dando as costas, quando Bernardo se esticou pelo balcão e segurou seu pulso uma segunda vez.

O que você queria?“, murmurou. “Não sobre seu nome. Mas quando você veio aqui para o balcão e não pediu café“. Bernardo soltou-a e empurrou a xícara na direção dela, um pouco sem jeito. “E você nem terminou esse aqui. Não sou o maior fã de café, sabe, mas não parece tão mal“. Dani se voltou, hesitante. “Não gosta de café? Que raios você faz trabalhando num lugar como esse?“.

O mesmo que você. Eu observo. Só que você olha pra dentro, e eu olho pra fora“, explicou, dando ombros.

De que adianta ser um observador com uma memória tão curta, que sequer lembra um nome?“.

Talvez você queira refrescar minha memória. Não lembro de você respondendo a minha pergunta“.

Talvez eu ainda não tenha achado a resposta“.

Talvez esteja no fundo dessa xícara,” ele indicou o capuccino ainda quente sobre o balcão. “Não vai terminar?“.

Dani sorriu, enfiando as mãos nos bolsos do casaco.

Já terminei“. Ela se aproximou e deixou duas notas em cima do balcão. “Pode ficar com o troco“.

 

Um texto que não venho de um prompt! Pensei na ideia do primeiro parágrafo enquanto me servia uma xícara de café essa tarde, e o resto veio vindo. Texto mais longo e mais demorado para escrever até então, não muito bom, mas fico feliz de ter feito algo original depois de tanto tempo. Imagem tirada daqui.

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