Edna

O vapor que saia do focinho da fera era como um incenso, doce e enjoativo, que espiralava preguiçosamente e imergia pouco a pouco o salão numa névoa venenosa. O dragão era de uma espécie anã entre os seus, mas isso não o fazia menos mortífero. Os olhos bem amarelos estavam semicerrados, em pleno contentamento com o contato com a pele macia da sua mestra. Ela sim era a criatura mais terrível e mais perigosa do palácio, embora não fossem poucos os horrores encerrados dentro daqueles muros. Uma de suas mãos delicadas e cheias de anéis envolvia o pescoço escamoso do dragão num abraço terno. A outra, brincava com meia dúzia de pequenas serpentes que escorregavam entre seus dedos e voltavam a se enrolar no pulso delicado, enquanto a cobriam de beijos com suas línguas bifurcadas.

O corvo gralhou em seu ombro, ofendido por ser o único a não receber as atenções da sua senhora. A mulher estalou a língua e o olhou brevemente, fazendo bico.

— Oh, não. Não fique assim — seu dedo esguio acompanhou o padrão das escamas do dragão, que exibiu a língua em triunfo – Você sabe que fez por merecer.

ednaO corvo gralhou outra vez, miserável, e aterrisou no borda de um grande cálice dourado. Sorveu do seu leite de cabra a bicadas tristonhas para se consolar. Um riso musical encheu o salão, assim como o tintilar de muitas pulseiras, colares e pingentes que a bela mulher trazia pendurados em todo o corpo e nos bordados do suntuoso vestido. Ela não podia sequer respirar sem que o ruído de metal a acompanhasse, como que com inveja de cada um dos seus movimentos graciosos.

Talvez por ser acostumada com essas sons miúdos ou simplesmente por ser senhora de tudo ali, a mulher percebeu quando alguém entrou seu aposento. Aninhou-se melhor no pescoço do dragão, ligeiramente enfastiada.

— Ah, meu caro, mesmo você deve saber que é tolice tentar me matar.

A resposta foi o som de uma espada deixando sua bainha. Ela jogou os compridos cabelos negros para trás e riu, de maneira encantadora. Ocultou os lábios com um lenço que combinava perfeitamente com as rosas que adornavam sua cabeça, talvez para abafar o riso, talvez para destacar seu olhar desconcertante. Baixou as orbes castanhas, recatada, e se aproximou o rosto do focinho do grande lagarto. Ele lambia o ar ansiosamente.

— Eu sei, meu amor — murmurou ela junto ao seu chifre. O canto da boca bem desenhada se elevou um pouco, mostrando por um momento a pura maldade de que era feita a pedra no lugar do seu coração.

— Também já cansei desse jogo.

 

O texto veio fácil, mas só consegui sentar para escrever faltando meia hora para o fim do meu prazo. Mas consegui terminar antes do deadline, YEY! A ideia para o título veio da mitologia grega, onde Edna é a mãe das quimeras. Quando desenvolvi essa relação meio maternal da figura feminina com os monstros ao longo do texto, comecei a pensar nela como uma interpretação da Edna. A ilustração que originou o texto é de Frank Cheyne Papé e pode ser encontrada aqui junto com outros exemplos do seu trabalho.

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