Kos Ule

kos ulrA Lua cheia resplandecia no céu, senhora do firmamento. Mesmo as estrelas não ousavam brilhar diante dela. As nuvens pareciam se afastar do círculo luminoso voluntariamente, como que para não correr o risco de eclipsar o espetáculo. Ou como se fugissem de uma doença contagiosa. De uma maldição. Era um tanto amarga, a ironia. O astro que supostamente deveria trazer luz à noite era o que fazia dela tão sombria. Ele gostaria que não fosse assim. Sentia saudades de poder admirar a Lua como fazia antes. Mas no momento, apenas uma parte adormecida da sua mente tinha ciência desse desejo, dessas memórias. Aquela parte que estava no controle, entretanto, não tinha receio ou rancor da Lua que brilhava sobre sua cabeça, ou da luz que refletia seu pelo alvo e macio.

Ah, aquela parte dele admirava a Lua como mais ninguém poderia fazer.

Os olhos cor de âmbar perscrutavam toda cidade do alto da basílica, atentos, mortais. Cada movimento, cada oscilar de folha não escapava das orbes atentas. Ele era um predador à procura de sua presa. Numa noite clara como aquela não tardaria a encontrá-la, apesar da névoa que começava a se insinuar. Ele farejou o ar e abriu o que poderia se chamar de um sorriso, com as presas afiadas à mostra. Um daqueles seres de pele mole e pelos estranhos seguia apressadamente pela a rua cuidadosamente ladrilhada. O medo emanava dele de tal forma nauseante. Um tolo, um tolo que procurava a morte.

Um uivo veio confirmar o que os seus instintos diziam. Seu banquete estava para ser servido: a morte viera ao encontro do seu tolo.

Eram quatro. Surgiram da floresta rosnando e uivando como os animais raivosos que eram. O Lobo alvo podia sentir o cheiro de sangue seco nas garras curvas e mesmo a agressividade na expressão de cada um. O pelo cinzento e sujo lhe contava os buracos onde andaram, as grutas em que procuraram refúgio e as batalhas que travaram. Eram fortes, e isso o deixou satisfeito. Eram criaturas desesperadas. Sobreviventes.

Não por muito tempo.

Poderia ter agido naquele momento, mas aguardou até que o mais forte pulasse sobre a presa que eles compartilhavam. Era patético o ponto a que chegaram. O alvo poderia pensar que estava sendo generoso, privando-lhes de uma existência tão patética – sem no entanto lhes negar uma última refeição. Uma última porção de carne fresca. Mas o lobo não era capaz de pensar.

E ainda que fosse… não seria generoso.

Um outro uivo cortou a noite gelada. A Mãe Lua assistiria a um espetáculo a sua altura.

 

Escrevi esse texto há quatro(!) anos atrás para um desafio chamado adote uma história. Basicamente, foram disponibilizadas 100 imagens de inspiração, você adotava uma e escrevia sobre ela.Foi a primeira vez que trabalhei com prompts e nem tinha noção ainda.  Rainha marchando para a Guerra foi o primeiro texto que escrevi para esse desafio. Escrevi ainda outro, que postarei em breve. A imagem original foi feita pelo turco Kerem Beyit  e pode ser encontrada aqui!

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