Veteranos de guerra

Berto podia ver cada ruga, cada vinco da pele repuxada e marcada pelos anos e pelo aço no reflexo que seu escudo lhe mostrava. Encarou os olhos, cinzentos como as tempestades que enfrentara e vencera, como as lápides dos companheiros que ficaram para trás. Embaçados como a névoa que começava a envolver suas energias e tragá-las para um lugar além do seu alcance. Como aquilo fora acontecer, afinal? Não, não podia ser tão velho. Ainda tinha a lembrança, nítida como o brilho do sol em um dia de verão, da juventude e da força correndo pelas suas veias, irrigando as mãos firmes que brandiam a espada, que agora repousava ao seu lado, e os músculos ainda rígidos por baixo das camadas de pele e metal que pesavam sobre seu corpo encurvado. Ali, em algum lugar daquelas orbes, ele ainda sentia a pulsação ansiosa e a confiança de um guerreiro.

Os olhos cinzentos, porém, não eram os únicos a encará-lo. Berto sentia a atenção que o olhar de Irma lhe dedicava, tão imóvel que nem parecia respirar. Ou talvez a criatura estudasse seu próprio reflexo, procurando reconhecer a si mesma na figura majestosa e cansada que o instrumento de metal – que oporia a mesma resistência que uma folha de papel diante de suas garras poderosas – lhe apresentava. Havia qualquer coisa de triste naquelas duas esmeraldas, de saudade e de distância. Mas ele não se prendeu muito tempo à tarefa de tentar entender o que se passava na cabeça de Irma. Depois de todos aqueles anos, jamais conseguiu penetrar nos pensamentos da grifina, obviamente muito mais profundos que aqueles da metade dos homens que conhecia, e a tentativa lhe era demasiado custosa e atemorizante.

Berto deu um de seus pesados suspiros e pousou o escudo no chão, próximo à espada.

Heh. Não sei para que polir essa droga, afinal. Não é como se eu gostasse do que vou ver, não é mesmo?

Ele riu e encarou a companheira, que manteve seu olhar distante e insatisfeito. Era deveras complicado ter por confidente uma criatura que mal lhe falava, nem por palavras e nem por olhar, e quando o fazia, parecia sempre criticar seus modos. Berto não se queixava, apreciava seu silêncio aristrocático. Muito do que ouvia era tolices, e com Irma não havia o que temer. Apesar disso, sabia que a grifina gostava dele por algum motivo que nem ele compreendia mas, fosse qual fosse, o convencia que talvez tivesse algum valor no mundo. Caso contrário, Irma já teria partido há muito tempo, e ele não estaria vivo ainda. Vivo. Não se sentia assim, de toda forma.

Vida para ele era o que movia o corredor, o som de conversas espalhafatosas ecoando o nervosismo da batalha, o calor das forjas viajando pelo ar, o ruído de metal contra metal e o cheiro de cavalos, sangue e suor. Vida para ele, por mais doentio que fosse, era justamente correr o risco de perdê-la, pois não havia melhor meio para a valorizar em toda sua extensão e detalhes sórdidos. Naquele canto esquecido, porém, o único risco que ele e sua companheira corriam eram o de envelhecer e esquecer o que era enfrentar a morte todos os dias, de tornarem-se eles próprios sórdidos e mesquinhos. O guerreiro passou a mão pela testa calva, enquanto as espessas sobrancelhas se juntavam em uma expressão preocupada.

– Maldição, olhe para nós. Nunca pensei que viveríamos tanto. Heh. E olhe que bela porcaria nos tornamos.

Irma, é claro, manteve seu voto de silêncio, mas ar quente saiu do seu bico como um bufar. Berto apoiou as mãos calejadas nos joelhos vacilantes e se colocou de pé, ouvindo os ossos estralarem e as juntas reclamarem. Velho, quem diria. O seu andar ainda era firme, e ele acariciou a orelha fendida da criatura. Quando ela recebeu o ferimento, pensou que teria que cortar fora, de tão grave que fora a infecção. Mas Irma sobrevivera, como sobreviveram os dois a tantas outras coisas. Berto se aproximou um pouco mais, até que pudesse novamente olhar dentro dos olhos cinzentos através do reflexo das esmeraldas da grifina. Sorriu.

– Quer saber de uma coisa, garota? Hoje nós vamos para guerra.

Irma não respondeu, mas sorriu de volta.

Esse eu escrevi em março de 2013  foi minha última participação no desafio que originou o Kos Ule. Por favor, considere que grifina é a fêmea do grifo e que essa palavra realmente existe, heh. Gosto bastante dessa peça e da relação que criei para os dois personagens. É mais estruturado que muito dos meus textos infindados, mas como carece de um conflito, não acho que chegue a um conto. A imagem original foi feita pela Sandara e pode ser encontrada aqui.

 

 

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