Os segredos escondidos na Torre acima do Véu

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Título: A Torre Acima do Véu
Autora: Roberta Spindler
Editora: Giz Editorial
ISBN: 9788578552312
Ano: 2015
Páginas: 288
Avaliação: 4/5

Comecei 2017 determinada a priorizar livros nacionais, e Roberta Spindler foi um excelente começo com seu romance distópico. A história se passa meio século depois que boa parte da humanidade foi dizimada por uma névoa misteriosa que obrigou os sobreviventes a se abrigarem no alto de mega-edifícios. A vida na Nova Superfície é dura, cheia de limitações, incertezas e do medo constante dos outros sobreviventes da Névoa: os sombras. Assim são chamadas as pessoas que resistiram à infecção da Névoa, mas se tornaram monstros e abduzem humanos que se arriscam muito próximos do véu. O motivo, ninguém sabe.

Nesse ambiente hostil, diversas facções disputam o controle ideológico e econômico do que restou da sociedade, sendo a Torre a organização mais influente e equipada. E no meio disso tudo encontramos Beca, uma jovem audaciosa que ganha a vida com o pai e o irmão se arriscando para resgatar recursos em níveis perigosamente próximos da nuvem tóxica e dos seres que a habitam. Apesar da experiência e perícia da garota, uma transação dá terrivelmente errado, e ela se vê enredada em missões perigosas que podem não apenas decidir a vida da sua família, mas esclarecer os mistérios ocultos no véu e por em xeque o poderio da Torre.

A sinopse é interessante, mas talvez por não estar muito habituada com o gênero, fiquei surpresa com a rapidez que a narrativa me ganhou. Nos primeiros capítulos meu coração acelerava constantemente, dividido entre querer saber o que ia acontecer em seguida e com medo da resposta. Roberta tem uma escrita fluída, ágil e enxuta, como um livro repleto de ação exige. O universo complexo que ela criou é explicado brevemente em parágrafos que se costuram com os eventos de maneira sutil, permitindo que o leitor compreenda melhor aquele mundo sem tirar o foco do que está acontecendo. A autora não desperdiça palavras, e se vê claramente que tudo que está escrito ali tem uma participação no avanço da trama. Um bom indicador são os capítulos curtos.

A visão da autora sobre o futuro é bem interessante e propõe reflexões atuais sem soar piegas. O leitor minimamente sensível vai perceber as provocações sobre as consequências de um sistema econômico pouco humanizado e a natureza corrupta (ou não) do ser humano. Outro elemento que me cativou foi como a cultura latina está naturalmente impregnada no livro, quando vemos outros autores nacionais forçando um pouco a barra em importar elementos narrativos mais típicos da literatura americana ou europeia. Nada contra, mas vamos combinar que temos uma proximidade bem maior com os nossos hermanos aqui do hemisfério sul,  e Roberta sabe usá-la muito bem.

Um ponto mais fraco na escrita, porém, é a descrição de sentimentos: parece forçada em comparação às abundantes cenas de luta, que se desenrolam naturalmente. Mais informações sobre a tecnologia e sociedade pré-névoa não fariam mal, mas nenhum desses dois pontos que eu levantei prejudica a leitura. Algumas consequências da névoa também me pareceram arbitrárias, como algumas habilidades dos alterados, pessoas que, como Beca, nasceram com habilidades especiais. A garota é uma saltadora e tem uma agilidade fora do comum. Até aí, tudo bem. Mas ter vislumbres do futuro ou teletransporte me parece um pouco demais.

O que me incomodou mesmo, porém, foi como a autora conduziu o desfecho.

Várias reviravoltas (todas interessantíssimas) são desenvolvidas de maneira muito apressada, resultando em algumas ações providenciais demais para o leitor comprar. Tive a impressão de estar assistindo um filme muito bom, mas que estava chegando ao final com muitas pontas soltas e o diretor se viu obrigado a amarrá-las de qualquer jeito. E você acaba com uma interrogação no rosto quando os créditos começam a subir, com a sensação de que perdeu alguma coisa. Um capítulo em específico foi um verdadeiro Deus ex Machina no sentido de revelar informações preciosas sobre o mundo criado por Spindler, e alguns comportamentos de personagens simplesmente não fizeram sentido.

As personagens, a propósito, seguem arquétipos clássicos, dentre os quais destaco o malandro-que-é-mais-do-que-os-olhos-podem-ver e a garota confiante com um coração debaixo da máscara de durona. Não há muitas surpresas aí. Mas ei, arquétipos existem por uma razão, certo? E Roberta se vale deles de maneira razoável. Tirando esse escorregão no final, tudo na narrativa faz muito sentido, desde a ambientação até a maneira como as personagens se relacionam.

A Giz Editorial fez um ótimo trabalho com o livro: tipografia confortável com uma pitada de high-tech nos cabeçalhos, boa revisão do texto e um bônus ilustrações pontuais e interessantes no estilo HQ clássico de super herois, que deixam o volume super charmoso. O desenho e as cores da capa são bem atrativas e foram o que me fizeram olhar para o livro em primeiro lugar. A história deixa uma possível continuação em aberto, e depois de trocar alguns tweets com a autora, Splinder confirmou que planeja outro livro no mesmo universo – mas ele não é o próximo que ela vai lançar. Vamos ficar de olho!

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