As verdadeiras pelejas em A Batalha do Apocalipe

a_batalha_do_apocalipse_14539131761322sk1453913176b

Título: A Batalha do Apocalipse
Autora: Eduardo Spohr
Editora: Versus
ISBN: 9788576860761
Ano: 2014
Páginas: 586
Avaliação: 3/5

 

E no Sétimo Dia, o Altíssimo descansou. O Criador deixou sua obra aos cuidados dos sete arcanjos, mas seu ciúme foi despertado por dois tesouros da humanidade que nenhum ser angelical possuia: alma imortal e livre arbítrio. Uma guerra civil teve início no céu, e os poucos anjos que se atreveram a lutar pela humanidade foram renegados, exilados na Terra e condenados a viver em avatares de carne — ao menos, enquanto conseguissem se esconder de seus inimigos. Pouco depois, um segundo cisma expulsou Lúcifer e seu séquito para o inferno, pelo crime de ter afrontado Miguel. E para a frustração do tirano, apesar de todos os seus esforços, o homem sobreviveu. Mas não por muito tempo. O Armagedon se aproxima. O tecido da realidade cairá e dará espaço a uma batalha entre anjos e demônios para decidir o futuro da humanidade, antes do momento derradeiro do despertar do Altíssimo e do Juízo Final de homens e celestes.

Agora cabe a Ablon, o último anjo Renegado, erguer-se mais uma vez pela defesa da sua causa perdida.

Senhoras e senhores, saibam que escrito em terreno tupiniquim e em bom português temos uma obra fantástica como eu nunca vi além das nossas fronteiras. Em aspectos positivos e negativos, mas sobretudo pela dimensão da história e da originalidade do autor. Spohr conseguiu englobar todas as mitologias que conhecemos e amamos, mais todas as religiões já praticadas pelo homem em um único universo de maneira incrivelmente simples, mas brilhante, respeitosa e, na maioria das vezes, muito coerente. E temperou tudo com um enredo, bom, apocalíptico.

Uma história fantástica. Narrativa, nem tanto.

O enredo de A Batalha do Apocalipse é interessante e original, ambientado em um universo que comporta simultaneamente a fantasia e nossa realidade mundana — e sou da opinião que é muito mais difícil integrar a “magia” ao mundo real que separá-las ou criar um universo totalmente alternativo. Mas alguns pontos do estilo do autor me dificultaram a leitura. Um dos mais evidentes, e que já foi apontado em outras resenhas, são os diálogos. Eles soam um pouco forçados e pomposos. Há uma formalidade, compreensível em até certo ponto, mas que se torna cansativa com o tempo. Ouvi o Sphor dizer em um nerdcast que essa crítica o levou a estudar mais diálogos, então bola pra frente.

A ordem indireta de muitas sentenças também me incomodou. Você demora a chegar ao cerne da ação. Eu sei que parece besteira, mas acontece de maneira tão recorrente que cria um efeito perceptível e, para mim, negativo. Também tive problemas com o foco narrativo no Ablon, o protagonista. Porque embora o foco fosse nele, muitas vezes não víamos através da perspectiva do anjo renegado. Sabemos que ele é assim ou assado porque o autor o diz, e não porque o vemos de fato. Inclusive, tenho vários problemas com o Ablon. Ele representa um ideal, mas quando você presta atenção, ele está sempre vacilante nas suas convicções. Ele exerce um grande fascínio e inspiração enquanto símbolo, mas na verdade é indiferente em boa parte da história humana, cuidando dos seus.

E verdade seja dita, o Ablon é um tanto lerdo.

Para um ser de milhares de anos, ele tem uma capacidade ridiculamente baixa de fazer conjecturas e ligar os pontos. E eu não posso com personagens lerdos, especialmente se são os protagonistas. Dá vontade de sacudir o sujeito pelos ombros e mandá-los pensar. As personagens, em geral, não são muito profundas e têm motivações simplórias que dificilmente se sustentariam por séculos. Mas há um equilíbrio interessante: a princípio são preto e branco, mas depois você vê as escalas de cinza. Pena que são pouco exploradas.
Mas até o momento foram questões mais pessoais. Agora vamos a considerações gerais sobre o livro.

Os capítulos são divididos em subtítulos meio independentes entre si: quase sempre há algum resumo de uma ação anterior de um para outro. Algo como “Eis que aparece fulano de tal, que tinha feito abobrinha em xis circunstância”, sendo que você acabou de ler fulano fazendo abobrinha duas páginas atrás. Verdade seja dita, por vezes isso se dava em momentos mais distantes. Mas sério, a memória do leitor não é tão curta assim. A gente vai lembrar como quem morreu e pela mão de qual personagem, juro. A impressão é que o autor escreveu as aventuras do seu herói em vários contos ao longo dos anos e resolveu juntar tudo num livro só. Some isso à enunciação repetitiva de títulos como “Beltrano, o Fenomenal” e o resultado é um ritmo de leitura travado e tanto exaustivo.

Outra coisa que altera o ritmo, mas de forma proposital, são os vários flashbacks que permeiam o livro e colocam o leitor em diferentes ambientações, demonstrando uma vasta gama de conhecimentos e de suada pesquisa do autor, sem parecer forçada. O livro te possibilita viajar para diversos momentos e locais da civilização humana, fora os eventos da história angélica. Você realmente sente a atmosfera de maneira muito natural, e Spohr aproveita bem esses momentos para explicar sua mitologia, que merece um tópico à parte. Pontinho para ele.

Mas antes disso, vamos nos aprofundar um pouco nesses flashbacks, que têm tanto peso na história.

 

A volta constante (e desnecessária) ao passado.

O flahsback é uma ferramenta interessante para mudar um pouco o foco narrativo, atiçar a curiosidade do leitor e ao mesmo tempo o premiar com novas informações ou curiosidades sobre as personagens e sua trajetória. Certamente enriquece a obra, mas na minha opinião foi um pouco mal utilizada. Durante a leitura, minha impressão é que a maior parte do livro consistia nesses momentos anteriores à trama principal. Graças a Deus, para não ser injusta, eu fui fazer a contabilidade e descobri que na verdade o livro está bem dividido nesse aspecto: metade no passado e metade no tempo corrente. Cheguei a conclusão que meu desconforto com os esses momentos passados se divide em três pontos.

O primeiro é que as cenas do presente dividem o foco do leitor entre diferentes personagens e atmosferas do universo criado por Spohr. Você sente a história se encaminhando para um desfecho ainda difícil de vislumbrar e fica maquinando para tentar entender o que cada lado está tramando, você vê os vários lados de anjos e demônios. Já os flahsbacks se focam majoritariamente no ponto de vista do Ablon, que por sua própria natureza, é uma figura um tanto previsível. Por contraste, as cenas do presente são mais dinâmicas, empurram a narrativa para frente, enquanto os flahsbacks são narrativas de grandes feitos do anjo renegado – que não deixam de ser interessantes por si mesmas. Mas sendo sincera, quase não tem relevância para a trama principal.

Repare no quase, por favor. Claro que existem elementos presentes no desenrolar da história (alguns tristemente subutilizados, como uma figura que antagoniza o herói), mas o papel dessas informações nem de longe justifica o peso e o detalhamento dos flashbacks dentro do livro. A segunda parte do volume consiste basicamente em um bloco de 135 páginas de um episódio da vida do protagonista, que serve principalmente para fechar um ciclo aberto no primeiro grande flahsback (mais de 70 páginas) e para justificar a ausência do heroi em determinado momento histórico. Não vou subir em um pedestal e dizer como Spohr deveria ter lidado com a situação, mas de uma coisa eu sei por certo: não havia a menor necessidade de se desviar da trajetória principal por durante períodos tão extensos, por tão pouca coisa. E nem de mudar o narrador de terceira para primeira pessoa nesse único momento do livro.

E chegamos ao segundo ponto: como os flashbacks são mais longos do que exige o bom andamento da trama, beirando o desnecessário, em um foco narrativo mais estático que a narrativa principal… eles se tornam absurdamente frustrantes. O nome do livro é a Batalha do Apocalipse, caramba. Você tá esperando para ver anjos se digladiando no alto dos céus e demônios ao redor. Quando parece que a coisa tá engatando, que vai haver um grande momento de ação ou uma revelação importante sobre o fim do mundo, YÉ YÉ! O Ablon lembra de uma das suas aventuras e começa uma (aparentemente) longa narrativa que não acrescenta em (essencialmente) nada ao que você estava lendo antes. Sufoquei um grito algumas vezes, incapaz de acometer a atrocidade de pular meia dúzia de páginas ou mais.

Por fim, o terceiro ponto, consequência dos outros dois: a má distribuição desses momentos. Como já disse, os capítulos são longos, divididos em vários subtítulos, e geralmente marcam a passagem de um momento atual para um passado e vice-versa. Ou seja, um capítulo no tempo presente, o outro, no passado. Se o Spohr tivesse juntado alguns desses subtítulos para fazer capítulos menores e alternado com mais frequência entre presente e passado, a leitura teria ficado mais leve e sutil. Mas de novo, não há uma relação clara e forte entre momentos históricos tão distantes que sustentasse uma estrutura assim. Os eventos não se costuram, não há uma causalidade evidente. O resultado são grandes blocos de presente/passado, geralmente de tamanho desiguais, que causam estranhamento pela diferença de dinâmica entre eles e deixam a leitura truncada.

Outra vez, parece que o Spohr juntou vários pequenos contos do Ablon, acrescentou capítulos referentes ao juízo final e fez um livro. E que fique claro: as aventuras do anjo renegado são sim interessantes. Mas não tinham necessidade de estar ali, ao menos não nessa extensão. Acho que eu preferiria muito mais ler um A Batalha do Apocalipse com menos passado do Ablon, e depois ler uma coletânea da sua trajetória épica e trágica. E falando em épico, tocamos em um ponto fundamental do livro.

Uma ode às Grandes Coisas

Pela sinopse do livro, dá para perceber que a história tem grandes pretensões — o que é bom. Não é uma saga para cumprir um objetivo pessoal ou salvar um reino: é o destino do mundo que está na mesa, e os jogadores são seres praticamente imortais de poder tão grande quanto o conhecimento que carregam. Deu pra sentir o drama, não é? Pois é. Desnecessário dizer que teremos batalhas épicas entre entidades divinas, celestiais e demoníacas. Mas ainda assim, Sphor faz questão de sublinhar o óbvio.

O excesso de adjetivos para engrandecer as ações, exclamações abundantes, títulos pomposos para quase todas as personagens (repetidos com constância) e suas armas (idem), algumas palavras rebuscadas em demasia que destoam do texto, frases de efeito; enfim. Tudo isso contribui para dar um aura de grandeza à história que, na verdade, seria atingido de maneira muito mais eficaz se as ações fossem narradas com mais naturalidade. Quase tudo no livro parece que é um evento, há essa aura de drama em cada ação, como se todo ato fosse definitivo e irreversível. Pessoalmente, isso gerou em mim um pouco de desdém. Em especial porque esses mesmo seres ultrapoderosos que mencionei acima parecem se admirar com tudo. Era de se esperar que, após uma existência milenar presenciando grandes forças, essas criaturas não ficariam impressionadas à toa, e nem umas com as outras.

E precisamos falar das cenas de batalha, que são várias. Algumas são notadamente exageradas, do tipo que após dois golpes já se tornam o combate do século e os oponentes estão quase morrendo. Mas as cenas de lutas coletivas são sen-sa-cio-nais. Quero muito uma série, um desenho, um filme, qualquer coisa, para ver isso na tela um dia. Haja orçamento para efeitos especiais. Spohr realmente entrega aquele peso do Armagedon prometido, embora algumas estratégias de luta não tenham me convencido muito. Mas a pancadaria rola solta e vai muito bem, obrigada.

Um outro ponto mais sutil e, para mim, mais interessante da grandiosidade da Batalha do Apocalipse são os questionamentos e reflexões morais que ele propõe. Sim, através da linguagem pomposa que já discutimos, mas igualmente válidos. Destruição, guerras, prejuízos ao meio ambiente, egoísmo, corrupção, responsabilidade. Está tudo aí. Um dos pontos fortes do Spohr foi colocar, ainda que de maneira superficial, a dúvida de Ablon se a humanidade realmente vale a pena. É uma pergunta que todos nós nos fazemos ao menos uma vez na vida, e se debruçar sobre ela pode ser uma dura jornada.

Mas o brilhante mesmo nesse livro, foi o universo que Sphor criou.

Mitologia para todos, e algumas pequenas incoerências.

De longe, disparado, a melhor coisa sobre A Batalha do Apocalipse. Sphor teve uma sacada muito simples que conseguiu unir todas as criaturas fantásticas que existem e ainda estão para ser inventadas, mais as religiões extintas e viventes. Os diferentes planos de existência, o tecido da realidade produzido pelo senso coletivo, tudo. Uma salva de palmas bem sonora para o menino Spohr, por favor. Como amante de mitologias (tenho duas no meu nome, prazer), fiquei fascinada. As possibilidades são tantas que não à toa existe um sistema de RPG para quem quiser jogar dentro dele.

Inclusive, quem quiser me chama, porque quero muito.

Contudo, há alguns probleminhas. A começar pela natureza angélica. O autor adaptou o sistema de castas da doutrina cristã e explica que, por não possuírem livre-arbítrio, os anjos estão aprisionados a sua natureza, a sua essência — a sua casta. Um anjo guerreiro como Ablon, um querubim, luta. Ponto. Suas divindades (aka poderes), seus instintos e valores se baseiam nisso. Mas ao longo do livro você percebe alguns furos nesse raciocínio e o autor se contradiz algumas vezes.

Exemplo. Em determinado momento, o mundo pode acabar em barranco que Ablon não vai interromper uma luta. Em um outro, ele tá quase derrotando um inimigo muito importante, mas escolhe interromper a luta para deixar um terceiro em segurança. Ou quando um determinado demônio que é descrito o tempo inteiro como impulso destrutivo e pura crueldade (porque o amoroso Criador faria tal anjo, aliás?) desata a fazer um discurso extremamente meticuloso para alguém tão tempestuoso. Só um exemplo, mas dúvidas quanto à capacidade dos anjos de fazer escolhas são perceptíveis ao longo de toda história. Também há alguns furos narrativos um tanto crassos, como um determinado momento em que Ablon é ludibriado quando suas habilidades angélicas poderiam facilmente ter impedido isso.

E por fim, não vamos esquecer que Spohr se baseou numa das maiores religiões vigentes do nosso mundo para fazer o grosso do seu universo. Alguns fatos ele não pode ignorar, como Jesus Cristo, ou o que acontece com as almas dos mortos. E ele não o faz. Mas achei algumas saídas muito evasivas, vagas e até injustificadas. Mas dado o tamanho da dimensão do que ele criou, tá desculpado, vai.

Concluindo.

Você luta para vencer a narrativa um pouco repetitiva, truncada e desnecessariamente dramática (no meu caso por várias semanas), mas é recompensado com uma história bem construída, que discute grandes questões morais como o livre-arbítrio num ambiente fantástico muito original, estruturado e flexível. É um livro autêntico, rico e que certamente tem um grande peso na literatura fantástica brasileira, apesar de algumas falhas no texto que não tiram nem de longe o mérito do autor, ainda mais considerando o volume da obra e que foi seu livro de estreia. O final faz valer a pena a leitura, do tipo que você não sabe se fica satisfeito ou indignado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s