O terrível steampunk nacional de Enéias Tavares (no bom sentido)

1Título: A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison
Autor: Enéias Tavares
Editora: Casa da Palavra (Selo Fantasy)
ISBN: 9788577344895
Ano: 2014
Páginas: 304
Avaliação: 4/5

 

A história se passa em Porto Alegre dos Amantes (mais conhecida por nós como Porto Alegre) lá pelos anos 10, em meio a robôs serviçais, zepelins voadores e o pior que existe na natureza humana. É nesse ambiente um tanto misterioso e soturno que o jornalista carioca Isaías Caminha precisa compor seu dossiê sobre o caso do abastado Dr. Louison, que apesar dos seus modos educados, deu para assassinar outros membros da elite gaúcha e usar os órgãos das vítimas para estudos anatômicos. A matéria por si só já seria estranha o suficiente, mas para completar, o crápula escapa do hospício onde estava detido bem na véspera da sua execução.

Talvez, com a ajuda do próprio Isaías.

Vamos começar dizendo que, embora o steampunk sempre tenha me fascinado, eu muito provavelmente nunca havia lido nada do gênero, então estava cheia de expectativas quando coloquei minhas mãos nessa coisinha de título maravilhosamente comprido. Ainda assim, acho que jamais teria esperado nada do tipo, não tanto pelas características da história, mas pela maneira como ela foi narrada. E o formato é sem dúvida o grande diferencial do livro.

Esqueça o formato tradicional de capítulos e atos, o volume é dividido em várias partes, não-cronológicas e algumas até simultâneas, sempre trazendo a perspectiva de alguma das personagens que Tavares criou ou reciclou para o seu enredo. Os trechos não chegam a serem narrativas, mas um conjunto de documentos, compilações e diários que variam não só de foco narrativo, mas de formato e estilo. O livro então é composto de um amontoado de arquivos que pretendem explicar, bom, “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”. E é um dossiê fascinante e bizarro de se estudar.

O sumário já é uma boa pista do tipo de diversão que o autor promete, e pontua a formalidade da escrita que é boa parte do charme do livro. Confesso que eu adoro esse tipo de escrita meio clássica, e nunca tinha visto um autor contemporâneo usá-la tão bem e com tanta naturalidade. Existe uma certa musicalidade nas frases e termos conhecidos, mas esquecidos, que tornam a leitura muito prazerosa apesar das atrocidades que são descritas.

E isso é importante: este não é um livro infanto-juvenil. Existe sim uma certa carga sexual (bem liberal, falando nisso), mas o que realmente implica uma leitura mais madura são os vários tipos de violência que permeiam as páginas, que embora descritas de forma… elegante, não deixam de ser perturbadoras. Afinal de contas, o vilão da história disseca corpos humanos para desenhar seus órgãos internos, e isso nem de longe é a coisa mais brutal do livro.

A violência, contudo, não é gratuita, mas a principal ferramenta da crítica que o autor faz a preconceitos, comportamentos e à sociedade humana de maneira geral. A crítica ainda é assinalada com um certo humor irônico e soturno, bem como na construção das personagens: não há uma que se salve. Todas tem algum podre, vício ou falha de caráter que te impede de gostar delas enquanto seres humanos, mas a amá-las enquanto personagens que são. Para ser sincera, eu me senti incomodada na maior parte do livro com a conduta das pessoas, o que eu acho que meio que era a ideia.

Muitas das figuras mais vitais do livro, a propósito, são emprestadas de clássicos da nossa literatura, como Simão Bacamarte de O Alienista do grande Machado de Assis. No final do livro há uma relação de todas as personagens que foram retratadas e seus livros originais, e Tavares conseguiu que eu inserisse alguns deles na minha lista de leitura. É assim que você incentiva os jovens a lerem clássicos, minha gente. Muito mais efetivo que enfiar Noite na Taverna goela abaixo dos estudantes e aplicar provas que não exigem nada além de respostas decoradas de resumos na internet.

Além do enredo interessante, da escrita cheia de nuances e do formato dinâmico, a edição também é um grande atrativo. Tipografia, papel, mapas e títulos, além de outros elementos distribuídos pelo livro te motivam a ler até a última palavra. A ambientação também é excelente, inserindo elementos tecnológicos de maneira clara, coesa e com muita naturalidade (bem como fatores sobrenaturais). A forma e a formatação, em todos os sentidos, foi o que me ganhou neste livro.

Mas preciso dizer que discordo da “lição” que o Dr. Louison quis passar com seus crimes — ou se preferir, da moral da história. Não vou entrar em detalhes para não estragar o final, que me desagradou não tanto pelo conteúdo, do qual só discordo, mas pela forma que foi entregue. Me pareceu um tanto com “a cena da sala” clássica de contos policiais, em que no último momento o brilhante detetive reúne todos os envolvidos e explica a chave do mistério.

Mas A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison é, de certa forma, construído sobre arquétipos e clássicos, cuidadosamente colocados e expostos para assombrar com a cabeça do leitor. Leitura recomendada!

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2 comentários sobre “O terrível steampunk nacional de Enéias Tavares (no bom sentido)

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