O monstro do outro lado da porta

Ela saiu para enfrentar um monstro. Teve a súbita consciência desse fato quando percebeu que estava em movimento, com uma arma na mão. Não tinha outro jeito, teria que encará-lo. Deus do céu, ela estava indo se encontrar com um monstro, e teria que matá-lo.

Nas histórias que ela gostava, várias vezes os heróis se viram nessa mesma situação e percorreram a distância com a cabeça erguida, nervosos porém convictos. Era o momento que eles ganhavam o adjetivo corajoso ao lado de uma série de outras qualidades que os permitiam ser protagonistas dos seus enredos particulares.

Ela, porém, não sentia nada remotamente parecido com coragem.Leia mais »

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Cheia de nada

Era uma casa vazia. Não simplesmente estava vazia. Era vazia de tudo. Vazia de coisas, vazia de gente, vazia de sons. Um amontoado de tijolos que fora abandonado, como que erguido por acaso e depois esquecido. Lembranças. Era a falta de lembranças que fazia vazia a casa.

Certa noite, porém, sem que houvessem testemunhas, as janelas sem vidro viram uma luz intensa cortar o céu. Um calor estranho aqueceu o concreto, e era estranho porque naquela parte fria do mundo não existia calor. A luz foi crescendo, foi descendo e aquecendo até que chegou ao chão. A casa então percebeu que o calor vinha da luz, e que a luz vinha da pedra. E da pedra vinha mais alguma coisa.

Algo assim diferente, algo que não conhecia. Algo vivo, e perceber isso a fez pensar se não estava viva também – ou talvez só estivesse viva por causa da coisa. A coisa veio se arrastando pela luz, entrando sob o batente, se espremendo entre as frestas. Aí a coisa encheu a casa.

A casa era cheia de coisa.

No final de agosto, me propus a escrever um texto todos os dias. Para isso, pedia aos meus amigos que me falassem algumas palavras, um número e – TA-RAM! Eu tinha algo em que me basear e um limite de linhas. Só que um deles resolveu apelas e me deu números como 79 e 101, de forma que estou um pouco atrasada. Este eu escrevi no dia 24 de agosto, em 13 linhas. As palavras da vez foram corpo, meteoro e casa. Clique aqui para ver a imagem usada no post.

A Rainha Marchando para a Guerra

Havia um cheiro forte de suor e cavalos misturado ao ar quando o céu se tingiu de laranja no final daquele dia. Metal tinia contra metal em um som ensurdecedor enquanto uma multidão de passos marchava para a Guerra. De vez em quando uma brisa soprava-lhe os cabelos brancos, aliviando o calor e trazendo os gritos e ordens que emanavam das fileiras. Das suas fileiras. Mas a Rainha não ouvia, ou sentia a carícia do vento. Sua mão, demasiada pequena e jovem, se fechava contra uma espada que ela sabia não lhe pertencer, seus olhos estavam baixos, os pensamentos, perdidos.

A Rainha pensava em momentos de paz dourada não tão distantes quanto aquela marcha fazia parecer, pensava em como aquela mesma paz não seria mais vista no seu reino ao decorrer de anos. Pensava como as coisas poderiam ter sido diferentes e no que ela daria para não ter a responsabilidade que agora caia em seus ombros inexperientes. Mas principalmente, a Rainha pensava no futuro.Leia mais »