1PPD #08 | ritmo e poesia

As letras não faziam muito sentido, agora que conseguia entendê-las. Ou para dizer o mínimo, não significavam tanto quanto a violência cuspida como balas de revólver naqueles versos fazia parecer. Mas a emoção estava ali, ressoando entre os graves. Aquela mesma indignação nervosa que a garota encontrava nas rimas desde que era pré-adolescente. E era aquela energia agressiva, que nem todos os muitos versos disparados numa velocidade sobre-humana conseguiam explicar, que balançava sua cabeça para frente e para trás, pulsando no ritmo da música, como se a qualquer momento ela fosse gritar o que quer que o grave tentava arrancar da caixa de ressonância que seu peito se tornava sempre que os fones estavam no ouvido e o volume, no máximo. Só que o grito nunca vinha, só a ânsia sempre crescente. Era como um enjoo que nunca parava, mas um enjoo bom, que a deixava alerta e desperta. E em algum lugar no beat ela antevia a sombra do alívio que seria finalmente vomitar toda aquela raiva pra fora de si.

Meu irmão começou a ouvir um rap no quarto ao lado que eu estava no dia 17/1, e instintivamente eu comecei a me balançar no ritmo da música. Já tem um tempo que eu penso sobre os efeitos do rap, e esse trecho foi uma tentativa de explanar um pouco sobre isso em 172 palavras. O título vem do significado da sigla rap em inglês: rythm and poetry. Imagem original tirada daqui.

Anúncios

1PPD #07 | saindo do forno

Havia qualquer coisa de extraordinário naquilo. Na forma como a massa dos biscoitos derretia e fervilhava e inflava e esmorecia e dourava para depois, finalmente, endurecia dentro do forno. Antes pensava que era mágica, hoje, sabia que era química. Mas antes de qualquer coisa, era delicioso.

Um longo hiatus de quase de mais de uma semana. Escrito dia 16/1 quando eu refletia sobre uma fornada de cookies que tinham se pregado uns nos outros e formado um único biscoito que pregou no fundo da assadeira. 46 palavras. Imagem original tirada daqui.

A missão oculta do Coletor de Espíritos

o_coletor_de_espiritos_1502907260618561sk1502907262bTítulo: O Coletor de Espíritos
Autor: Raphael Draccon
Editora: Fantástica Rocco 
ISBN: 
9788568263525
Ano: 2017
Páginas: 272
Avaliação: 5/5

 

Gualter Handman adora sua vida. O psicólogo das estrelas tem uma agenda altamente selecionada, um apartamento de luxo e uma noiva que o ama. Tudo ia muito bem, até que uma tarde de chuva pesada lhe traz um gosto amargo na boca, lembranças ruins e uma péssima notícia: sua mãe sofreu um ataque cardíaco.

Gualter se vê obrigado a voltar para Véu-Vale, o vilarejo pobre onde nasceu e de onde fugiu, e onde todas as figuras da sua infância ainda esperam por ele – bem como os próprios fantasmas que o rapaz tentou deixar para trás. A viagem de volta a Véu-Vale desperta em Gualter perguntas que ele não sabe se quer responder.

Mas o pior é que em Véu-Vale continua chovendo. E em Véu-Vale, a chuva nunca vem sozinha.

E quem nasce em Véu-Vale, escuta.

Raphael Draccon, além de escritor, trabalha com cinema. Isso justifica o peso que a estrutura narrativa tem nos seus livros, bem como a composição quase visual de algumas cenas. O Coletor de Espíritos é um bom exemplo disso. O livro parte de uma premissa muito simples, que poderia facilmente ser resumida em uma frase. Mas não o faço porque o encanto obra está justamente na maneira em que ela é construída e apresentada, na descoberta gradual do que se passa em Véu-Vale e qual o papel do protagonista em todos os eventos misteriosos que cercam o vilarejo.Leia mais »

1PPD #05 | antiquário

Havia um certo encanto em coisas velhas, ou ao menos em coisas que pareciam velhas – coisas que uma pessoa velha poderia usar sem o menor embaraço, como fariam com algo que usaram a vida toda. Talvez o encanto estivesse justamente aí, no desembaraço. Coisas velhas não apelam para um design inovador ou sequer para uma utilidade óbvia. Sendo feias ou funcionais, são o que são, e não pretendem ser outra coisa. Sequer pretendem ser notadas. Podem passar anos encostadas num canto acumulando poeira, e quanto mais grossa forem as camas de pó, mais autoridade o tempo lhes outorga. Aí reside sua distinção: saber que outrora foram absolutamente e profundamente banais.

Escrito no dia 5/1, um dia em que eu estava especialmente encantada com uma canequinha esmaltada verde-escura que combinava perfeitamente com as encostas do vale do sítio onde eu estava. E eu também estava lendo Chesterton nesse dia, talvez por isso todo esse saudosismo por coisas passadas. 110 palavras. Imagem original tirada daqui.

1PPD #04 | meia dúzia de óbitos

Seis corpos de moscas (ou insetos voadores equivalentes) estavam à vista. Mais cedo, enquanto lavava a louça, outras três encontraram seu fim nas dobras do pano de prato violentamente brandido. Ainda era pouco. Muitas outras – muitas outras mesmo – foram mais ágeis ao escapar de suas investidas. E tantas outras vezes, ela sequer investiu contra as criaturas inconvenientes: apenas observou em silêncio o vai-e-vem das inimigas, calculando se a possível destruição deste ou daquele utensílio doméstico valia a tentativa de aniquilação. Tinha qualquer coisa naquele zumbido infernal que impregnava seus ouvidos que despertava nela um instinto assassino até então desconhecido.

Escrito no dia 4/1, tendo como base minhas pelejas contra as moscas no sítio onde eu estava. Elas realmente me deixaram muito bolada, a ponto de eu interromper uma leitura várias vezes achando que estava ouvindo um zumbido. 99 palavras. Imagem de ilustração tirada daqui.

1PPD #03 |pingo

Aquele cachorro era meio muitas coisas. Meio beagle, meio basset. Um olho contornado de preto e o outro não. Meio quieto, meio carente. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foi a serenidade comovente com que ele permaneceu imóvel enquanto ela acariciava lentamente seu focinho. Até fechar os olhos, ele fechou devagar.

Escrito no dia 3/1. Baseado em um cachorro chamado pingo que eu conheci ao visitar a chácara de uma colega da minha mãe. Ele parecia ter se metido numa briga, porque as bordas de ambas as orelhas estavam com uma crosta de sangue seco. E ele tinha um pouco de sangue fresco escorrendo da orelha também, que pingou no chão quando ele veio se sentar perto da minha perna. 53 palavras. Imagem de ilustração tirada daqui.