Um café meio-amargo

Ela girava o pulso sem parar, apenas em parte consciente do movimento enquanto pequenas ondulações surgiam e desapareciam na superfície do capuccino a sua frente. Dani nunca deu muita bola para elas. Gostava era de observar o pequeno redemoinho de vapor que se levantava acima da xícara, e como o mundo parecia mais caloroso e interessante através dele. Dentro da cafeteria, na verdade, o mundo parecia melhor e mais simples. Adorava aquele lugar. Adorava o cheiro de grão tostado, canela e chantilly, com uma pitadinha de chocolate. E mesmo sentada na sua mesa favorita, no clima mais aprazível possível, naquela tarde os olhos castanhos de Dani estavam vidrados na janela, atentos ao mundo do lado de fora.Leia mais »

O Capítulo da Noite

A Lua espiava lá de cima. Seu amiguinho sempre fazia coisas curiosas e interessantes, especialmente quando ela se enchia toda para dar uma olhada no que ele estava aprontando. E naquela noite esplendorosa, ela certamente não se desapontaria. Olhou bem para dentro do buraco em cima da sua toca e o encontrou no lugar de sempre: no topo de uma montanha de livros, tão grande e tão farta, que ela poderia contar muitos dos seus anos somando todas aquelas páginas empoeiradas.

— HÁ! — bradou ele ao ser atingido pela sua luz, mostrando arreganhando os dois dentões para ela — já não era sem tempo, já não era sem tempo!Leia mais »

A Caça-feitiços

“Ela fechou o livro de feitiços com um baque. Obviamente, ela não estava chegando a lugar nenhum”.

Percorreu a toca com o olhar mais uma vez, procurando qualquer coisa que tivesse passado desapercebida nas análises anteriores – o que era improvável. Ela fora treinada, muito bem treinada, para não deixar passar nada. Ainda assim… A caçadora apoiou o volume empoeirado contra o queixo e fechou os olhos, inspirando pesadamente. Talvez assim pudesse ver melhor. A resposta estava ali em algum lugar, ela quase podia sentir o cheiro. Mas onde? Soltou o ar pela boca sem pressa, esvaziando a mente. Deixou-a vagar entre as prateleiras quebradas, entrar nos frascos enegrecidos e se fundir com o conteúdo do caldeirão. Mas sem se prender em nada, sem buscar coisa alguma. E de repente, sentiu que era puxada para um ponto específico da toca com uma força inicialmente sutil, mas que rapidamente se tornou irresistível. O corpo se movia imperceptivelmente para frente e para trás, como num transe. Fosse uma mente mais fraca, ela estaria perdida. A caçadora sorriu e abriu os olhos com a determinação de uma fera. Fraca nunca foi a palavra certa para descrevê-la em qualquer aspecto.Leia mais »

Aquele velho clichê do ano novo

Sabe, os clichês funcionam por uma razão: a gente precisa deles. Não sempre, e não na maior parte do tempo, para falar a verdade. Mas às vezes, precisamos mesmo. Agora, por exemplo, o clichê de “ano novo, vida nova”, me serve bem. O que é curioso, porque eu sempre fui do tipo que olhava com desdém para as pessoas que desejavam todas as realizações possíveis para o ano que começa, mas reclamam de toda santa segunda-feira que acaba com o fim de semana. Quero dizer, por que essa fixação de só começar coisas novas e tomar iniciativa a partir do dia 1º de janeiro, ou mesmo às segundas-feiras? Por que não fazer as coisas interessantes que sempre quisemos fazer ou mudar sua postura agora, neste instante? Esperar um ano inteiro acabar para ser uma pessoa melhor soa um pouco como perca de tempo.Leia mais »

A canção das três torres

ec1ee29dc09a3f299b7468e002ac78efBahadur levou a trompa até os lábios secos e soprou. O ar a sua volta tremeu como se dez mil guerreiros prestassem continência ao mesmo tempo ao ouvir a canção da trompa – uma nota profunda, grave e contínua, que evocava a longa história dos seus ancestrais, ressoando em todo vale até atingir os fundamentos das três torres que eles erigiram nos primeiros dias. O timbre forte e imperioso da trompa atravessou os salões vazios, adentrou as salas trancadas e preencheu os corredores desertos até o recanto mais oculto. Bahadur inspirou. Ele podia sentir aquela presença, tão avessa à desolação de instantes antes. O palácio do seu povo estava repleto mais uma vez, mas ele não saberia dizer de quê. E com aquele ar inquieto e pesado circulando dentro do peito, soprou mais uma vez e mais demoradamente.

A canção de uma nota só pareceu se avolumar enquanto Bahadur a sustentava com seu fôlego, procurando avidamente por mais espaço. As colunas dos portais estalaram e o batente de algumas janelas se partiram à medida que o som tentava penetrar nas torres, numa inquietação e urgência crescentes. O zunido ricocheteou entre os troncos maciços das três torres e se dividiu. Bahadur não podia ver, mas podia ouvir a canção galgando a copa das torres e ao mesmo tempo descendo pelos veios nos caules até atingir o chão, rasgando-o e desenhando largas fendas no solo.Leia mais »

Viagem sem volta

a viagem sem volta

O ruído contínuo do trem passando sobre os trilhos era como uma canção de ninar. As pálpebras, pesadas, tentavam manter-se abertas a todo custo. Seu esforço fora em vão. Em poucos minutos, dormia. Acordou horas depois, sobressaltado, com um solavanco violento do vagão. Olhou pela janela – a lua resplandecente no alto do céu estrelado dizia que a meia-noite não tardaria a chegar.

  • Diabos… – resmungou, abrindo a porta com um estrondo.Leia mais »

Sobre lutos e novos (re)começos

Já tem algum tempo – acho que alguns anos, para ser mais precisa – que de vez em quando eu arrumo meu armário e esbarro em textos e desenhos antigos. “Quando eu deixei de ser assim?”, é a pergunta que sempre me faço, um pouco tristes, nessas ocasiões. As histórias vinham tão fáceis. Tão despretensiosas, tão fluídas, tão originais. Um sentimento, uma atmosfera que eu queria capturar  e pronto: lá está ela, retratada no papel.E de repente isso criava vida e se tornava uma série fabulosa que não consegui escrever por inteiro, e que minha memória perdeu no tempo.

Não sei, às vezes sinto que regredi na minha escrita, ou ao menos na minha criatividade.

Eu senti isso mais profundamente hoje, ao lembrar de um texto que eu gostava muito e… não encontrá-lo em lugar nenhum. Nem no meu fichário de arquivo, nem nos cadernos velhos, nem nos documentos que fiz backup, nos fóruns que costumava frequentar, nada. Foi-se. Isso me fez sentir uma dor tão grande, porque eu realmente, realmente gostava daquele texto e da série que se originou.

Como consolo, encontrei vários outros de que nem me lembrava. Vou postando-os aqui aos poucos, assim como novos projetos. Porque afinal de contas, não vou conseguir recobrar o que eu fazia com 12 anos se não começar pelo básico: escrever.

E eu estou tão entusiasmada/necessitada de voltar a escrever, que não apenas ressuscitei o A Scintilla (de novo), como dei um update no visual do pobrezinho, que estava precisando. Ainda não é o tema ideal, mas prefiro me ocupar mais de escrever que enfeitá-lo (por enquanto).